Em tempos de distanciamento físico, “realmente ouvir” o outro torna-se ainda mais importante.

Já parou para pensar sobre a necessidade de refinar a sua atitude de ouvir? Às vezes, estamos tão cheios do serviço home office que nem damos a devida atenção aos nossos de casa. Por outras vezes, o nosso falar ofusca a necessidade do dizer de alguém. Geralmente falamos muito, mas poucas vezes sabemos, de fato, escutar. Isso porque nem sempre essa é uma tarefa fácil.

Gostaria de citar um texto de um grande psicólogo, Carl Rogers. Ele fala sobre o ouvir. Trata-se de um trecho de uma palestra sobre comunicação, proferida para um público não especializado em psicologia.

O texto faz parte do livro Um jeito de ser. E começa assim:

“O primeiro sentimento básico que gostaria de partilhar com vocês é a minha alegria quando consigo realmente ouvir alguém. Acho que esta característica talvez seja algo que me é inerente e já existia desde os tempos da escola primária. Por exemplo, lembro-me quando criança fazia uma pergunta e a professora dava uma ótima resposta, porém a uma pergunta inteiramente diferente. Nessas circunstâncias eu era dominado por um sentimento intenso de dor e angústia. Como reação, eu tinha vontade de dizer: “Mas você não a ouviu!”. Sentia uma espécie de desespero infantil diante da falta de comunicação que era (e é) tão comum.” (Rogers 1983, p. 4-5).

O fragmento acima traz uma reflexão sobre o que vem a ser o “realmente ouvir”. Percebe-se que a professora apenas ouviu o aluno, porém lhe respondeu automaticamente. Quantas vezes alguém tenta nos explicar algo e nós já apresentamos uma resposta pronta? Será que estamos dispostos a ouvir?

É muito comum darmos nossas opiniões sem ao menos escutar tudo o que o outro teria a dizer. Também é bem comum aproveitarmos o relato de uma pessoa para complementar com uma experiência própria. Tudo isso é algo muito distante da definição do “saber ouvir”.

O texto de Rogers ainda continua assim:

“Creio que sei por que me é gratificante ouvir alguém. Quando consigo realmente ouvir alguém, isso me coloca em contato com ele, isso enriquece minha vida.” (Rogers, 1983)

Pensar acerca da figura do outro não deveria ser algo tão desafiador. Uma comunicação afetiva e efetiva requer a disposição para buscar entender e valorizar o verdadeiro significado contido no discurso do outro. Por isso, ouvir vem antes do falar, ouvir nos abre para relações mais consistentes.

Lembre-se: O que ouvimos traz uma particularidade do outro, não é apenas um mero falar. Saber ouvir é importante para fortalecer conexões e ainda melhorar a relação com quem nos cerca, além de ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal.

Termino aqui com um trecho do belíssimo  texto de Rubens Alves “A Escutatória”, que traz uma visão sábia e muito pertinente para os dias de hoje.

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

…Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia”.

Texto do Neto Andrade, Orientador Educacional do Ensino Fundamental anos finais e Ensino Médio.

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